O sonho


Há sossego na hora em que te digo adeus com uma mão de pôr de sol é um dia que, por ser teu, não vem, amor, não digas a ninguém que é em ti que eu penso quando as luzes se apagam e o dia anoitece no teu colo sem que tenhas tempo para pensar no que te aconteceu, "quem somos nós? O que fazemos aqui? O que é que a vida fez connosco?", no entanto, tu vês-me aqui chegada à lareira com um livro aberto na pernas, a fingir que leio e que não sei que me mentes quando dizes que me amas e que é tua a roupa que trazes vestida, tu sorris enquanto prendes nos dedos um cigarro de brincar e espalhas no ar o fumo a fingir, com a tua boca a fingir, com os teus olhos cinzentos a desaparecerem por detrás, esfregas a barba cor de névoa e dizes que a vida começa agora, tocas um piano de corda e pedes-me para esperar até amanhã, os teus filhos nasceram das tuas palavras jocosas e dos nós dos teus dedos fechados quando socavam as paredes que tu pensavas que eram minhas, mas afinal eram tuas, que pena, e há um sino na igreja da nossa cidade que toca sem parar, mulher estúpida, mulher carente, em que é que estavas a pensar? Não, não entrem já, não tive tempo de varrer as esperanças para baixo do tapete, agora vá, escolhe o vestido, aperta a barriga, dá cor a essa cara, faz o que queres, faz o que podes, dá a outra face, dá a outra face e a outra e a outra e a outra, até se gastarem todas as faces que já tive e as que ainda vão ser minhas, a nossa casa esfumou-se e na nossa sala há um cão a guardar a porta por onde devíamos entrar.

Agora acordei. Sinto o frio dos mosaicos do chão nos meus pés. Que bom que é estar vivo. Olha, cheira a pão quente lá em baixo. Alguém me chama numa voz sorridente.
Tudo está exatamente no seu devido lugar.

Rita Fé

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