Revolução


Agarrei no lápis, uma mistura de nostalgia temporal com dor e saudade…


«Deitei-me cedo, deixei-me ficar envolvida no calor dos lençóis, até que tudo ficasse longe, até que o peso nos meus olhos fosse mais forte que eu. E assim sem esforço deixei-me vencer.
Era uma rua, em pedra mármore (coisa estranha) incrivelmente uniforme, enquanto tudo parecia baço o seu rosto aparecia-me com uma nitidez extraordinária. Não me lembro de quase nada. Apenas de uma alegria súbita após o abraço, após o beijo, após a distancia das coisas, após o fim. Quase que matei saudade:

Pois então, que o relógio ande para trás!
Que o sol gire à volta da Terra!
Que a Terra gire à volta da lua!
Que o Rei se curve perante os seus súbditos após tantos anos de obediência!
Que ninguém fuja dos problemas e medos!
Que sejam eles a fugir de nós!
Que as senhoras do lavadouro cantem a canção do cego mendigo que está na praça!
Que os sinos da igreja toquem tão alto, que o povo será obrigado a juntar-se nas ruas!
Que o silencio acabe!
Que o bêbedo não tagarele na rua!
Que o teu riso seja o som de fundo de toda a minha vida!
Que vejam os ricos como pobres!
Que vejam os pobres como ricos!
Que seja de noite que as crianças decidam sair à procura da infância!
Que fuja o caçador do olhar da presa!
Que a arma atinja quem a dispara!
Que se vertam lágrimas de felicidade!
Que a chuva caía com tanta força, que o seu poder destrutivo e erosivo me despedace, que se funda comigo, que se envolva em mim e que mande rua à baixo!
Que a realidade seja o sonho!
Que a plenitude esteja na realidade!

Rompi num pranto para fora do quarto, precipitei-me para a porta da rua, os meus pés gelaram logo ao toque no chão frio, a chuva invadiu-me completamente, a roupa veio sufocar-me a pele. Não nos fundimos. Corri pela rua, o coração batia tão rápido, não sei se pelo esforço físico, se pela ansiedade.
Os sinos tocavam, nem alto, nem baixo, na verdade tocavam como sempre os ouvi tocar.
O bêbedo continuava a tagarelar pelas ruas, e as leis da física continuavam a falhar naquele corpo.
Quando cheguei, abri a porta, vi-te, contive a respiração, esperei que o coração saltasse do meu peito e parei nos teus olhos. A roupa descolou-se da minha pele, fazendo-a sentir-se abandonada por momentos, até o calor envolver todos os poros do meu corpo.
Enfrentando a dura realidade, já despida de um sonho vivido num sono inocente e ingénuo.
A realidade cravada na alma, era sempre mais forte que o meu Ser, sim, aquela realidade que age com indiferença perante a minha presença e que se ri ironicamente nas minhas costas.
A ilusão, acaba por se ir deteriorando, tão escassa, desaparece, tal e qual como o ultimo crepúsculo de luz, após o pôr do sol, tal e qual como na rua de pedra mármore, uniforme, onde te abracei com força, pela última vez!… nos meus sonhos!»

Quando terminei de escrever, estava decidida a terminar a história com um «Adeus», mas não querendo verter mais lágrimas, a não ser de felicidade, fica assim:

«Até amanhã… »




Quando sentires que o mundo te virou as costas, olha para trás! Não vais ver uma pessoa abandonada pelo mundo! Apenas uma pessoa abandonada por ti!

Rita Oliveira

8-12-2008

Comentários

um ate amanha é sempre preferível.
o adeus demasiado eterno.

Não vais ver uma pessoa abandonada pelo mundo! Apenas uma pessoa abandonada por ti!


eu acho que abandonamos as pessoas e depois elas abandonam-nos a nos e já nao podemos voltar a tras!
como diria alguem "life is a fucking shit... life is a sucks!"

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