quinta-feira, 11 de maio de 2017

Leonoid Afremov - Nostalgic

A minha paz é grande e dourada,
estende-se sob a areia da praia
e dela extravasa-se um fulgor que me aquece o peito 
em dias de chuva triste.
Os dias de chuva triste lavam-me o rosto 
da poeira das quedas, das cicatrizes do afogo.
Do meu rosto, os meus lábios sorriem para mim.
E por os meus lábios sorrirem para mim,
os meus olhos acedem-se como duas lâmpadas
que iluminam o caminho a dois amantes discretos.
E o caminho dos dois amantes discretos,
Não é mais do que as linhas da minha pele,
que se enlaçam, entrelaçam e se entrançam.
Na minha pele nascem pequenas flores de primavera.
 E quando nela não cabe a alegria de eu ser tanto,
eu danço.

Rita Fé

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Funambulismo

Ilustração de Troche

Eu quero andar na bamba, 
E sentir a corda a vincar-me os pés.
Nela caminhar, pausadamente,
pousando no ar os braços abertos
em gestos suaves e doces.
Arquear o pé delicadamente, as unhas pintadas de branco pérola,
tal qual uma bailarina,
mas sem fazer um grand jeté.
Ao fundo há uma música, só para criar expetativa,
apenas um piano choroso, alegrando-se a cada acrobacia,
para condizer com a seda rosa que visto.
O coração bate-me do peito até à garganta,
Porém, tudo se equilibra numa gloriosa harmonia.
Mas alguém do público começa a chorar uma chuva miudinha,
e, ao lado, outro sopra uma aragem impaciente,
tudo se me cola ao corpo lentamente.
Caio na erva molhada,
e em cima de mim o olhar de todos.
Todas as dores do mundo correm,
para me vir esmagar contra o solo.
Cravo os dedos na terra,
chego a pensar em não mais abrir os olhos
e dissolver-me nela.
Mas não!
Que se animem todas as forças conspiratórias
que atuam em mim!
Que é a vida se não cair e levantar?
Pois bem, ponham a corda mais alta!
E que o vento a faça ondular violentamente!
Porque enquanto o sol em mim brilhar,
jamais darei ordem para o espetáculo terminar!


11.10.2016

sábado, 9 de abril de 2016

Alice

Mulher sentada, Almada Negreiros

A Alice foi-se embora!
Foi-se embora escondida na sombra das nuvens,
e levou vestido os dias de ontem como gostava de os ter vivido.
Amigos, a Alice foi-se embora.
E só deram pela sua falta ao jantar,
quando, às oito horas, a mesa ainda não estava posta.
Nunca mais ninguém a viu.
A Alice foi-se embora depois de ter parido três filhos
e de os ter dado às suas vidas.
Foi-se embora depois das gargalhadas à mesa
e das maçãs do quintal caírem de maduras.
Mãe, a Alice foi-se embora.
Nunca mais ninguém a viu.
Só deram pela sua falta quando, à hora de dormir,
viram as camas desfeitas.
Quando o lixo entulhado não deixava abrir as janelas.
E quando o pó se confundia com a nossa própria pele.
A Alice foi-se embora depois de, tão carinhosamente,
eu lhe ter aquecido a cara com a minha delicada mão.
Foi-se embora porque se despiu diante do espelho e não se viu nua.
Foi-se embora porque se queria ver nua.
E agora, a aurora já não é fresca e húmida,
nem a noite amanhece com a mesma delicadeza feminina.
O mundo não mais será como fora outrora.
Resignem, a Alice foi-se embora.



Rita Fé, 8 de Abril de 2016

sábado, 21 de março de 2015



Às vezes, eu opto pelo caminho mais longo,
quando vou para casa.
É mais bonita a vista do caminho mais longo.
O rio estende-se aos meus pés,
desde a alta da cidade,
e tem pequenas pérolas amarelas,
que brilham ao sol.
E as gaivotas guincham, voando para elas,
como se soubessem de alguma coisa que eu não sei.
Quando estou sozinha, eu escolho o caminho mais longo
para ir para casa.
Faço-o para sentir os pés na terra,
que é mais permanente do que eu
que é como quem diz: que não se finda comigo,
mas vou eu findar-me nela...
Eu gosto de ir para casa pelo caminho mais longo.
E não me importo se demoro mais tempo a chegar
ou se vou atrasada:
só quando vou pelo caminho mais longo é que tudo faz sentido
e as ordens do mundo entram em sintonia.
E eu faço esse caminho para me lembrar porque vale a pena viver.
E ter nascido.

Rita Fé


quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Chuva


A chuva não se importa de cair,
pesada,
ou sem se sentir,
pelos caminhos do mundo.
Vem beijar o chão que os homens pisam.
Vem desfazer-se e correr,
com pressa de chegar,
a rios de ninguém.
Deixa-se morrer, quase sempre,
na margem.
Entranha-se pela terra,
numa ancoragem
efémera.
Dela nada tira, a ela tudo dá.
Vem para lavar a cara ao mundo,
e alimenta-lhe as raízes,
onde o olho humano não chega.
Para desaparecer a seguir.
E quando nasce o sol, ninguém diz
que por ali se viu vir,
águas do céu,
lágrimas de Deus.
Tal homem que se tomba morto
em guerra,
só existe para acrescentar mais pedaços à terra:
A chuva.

Rita Oliveira

sexta-feira, 21 de março de 2014

Adeus, Poesia!
Vai-te no vento,
para onde te oiçam,
que de mim não tens mais do que pouco.
Vai-te para outro.
Não te prendas a mim.
Aqui não tens mais que dores,
que te gastam, envelhecem
e que de ti não fazem história.
Só me serves para o ego da memória.
Vai, Poesia! Vai-te embora!
Não vês que daqui
pouco mais levas que o meu proveito?
Nada mais que um egoísmo perverso,
só para ti mais vago
que evidente?
Mas escreve-me, quando chegares onde fores.
Não me deixes sem novas!
Que não há paixão mais potente,
que a que habita no amor ardente
da ausência.
E, quem sabe um dia,
por não te ter
eu volte a ti.

Rita Oliveira

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Diario de un extranjero





Aquí en mi nación
llevase el horizonte junto al pecho.
Respirase corazón,
desbravase los bosques
hasta que se vean 
las raíces de la tierra,
secando al sol.
En mi país, en mi país de lejos,
los hombres escupen,
en las cicatrices de los hombres.
Y aquí no hay tempestades, aquí no llueve.
Solo es permitido a las nubes
una suave llovizna,
que ni llega para lavarse la cara.
¡Todo aquí grita, pero no lo digas a nadie, nadie lo sabe!
El cielo grita, la tierra grita,
los árboles, las casas cerradas, las paredes,
los caminos, las piedras,
los hombres del pasado, los hombres del futuro…
las flores podridas en las escopetas… ¡Gritan!
y los que se mueren, se mueren
porque no pueden gritar más.
Y los que se van, se van con la voz ronca.
Pero no lo digas a nadie, nadie lo sabe,
nadie lo puede conocer…
Mi país de lejos, un país que se grita
sin saber.


Rita Oliveira

sexta-feira, 22 de março de 2013


Se um dia eu te disser, que fiz tuas as águas turvas,

Do rio que corre por entre os dedos da saudade,
Não creias que não trago no rosto,
pousadas as vertigens da lembrança,
Coisa vaga ou esboço de não sei quê,
O algo que cessa sem cessar…
Acredita antes que fui alguém
a querer os nadas que os demais evitam.
Que fui eu quem, entre os nadas, se fez alguém.
E recolhe a alma do veneno,
daqueles a quem o tudo não basta,
E que não entendem, como é que para ser feliz,
Eu precisei de tão pouco!

Rita Oliveira
11.02.2013

sábado, 27 de outubro de 2012

O dia em que nasci


No dia em que nasci, o vento não deixou de se arrastar,
esguio, por ruas de ninguém.
Nasci, porque não quis perder a primeira folha de Outono,
A soltar-se da árvore mãe.
A balouçar-se ao vento e aos sonhos.
Que toda a folha, de toda a árvore tem:
A vida num sopro…
E uma só caricia à alma.

Só está vivo, quem não sabe que vive.
E mais vale a loucura de não o saber!
Qual aragem gélida e sufocante,
Roçando nos cabelos selvagens,
Que insistem, teimosamente, em nos beijar os lábios e o olhar
Sacudimo-los violentamente.
E entre o desfazer o nó, com as pontas dos dedos,
e a bonança, para onde corre todo o tempo,
Ninguém diz que por ali passou
a vida.

No dia em que eu nasci…
Ah, e parece que foi ontem que nasci!
A minha alma não cabia em mim.
Do excesso, fiz poesia.
E neste sopro, vão os versos,
vai a alma que em mim não cabia…
E uma dor de quem não sabe viver.
A última folha caída.

Rita Oliveira
27.10.2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sem nada de novo





Não quero crer que tenho a alma gémea
que os homens trazem pela mão. 
Essa crença ou frustração, 
Sufoco ou liberdade, 
Doença vaga ou lucidez insana, 
que se prega ao peito, cabeça, 
coração, 
ou nada… 
e vem dizer com voz de ninguém “eu amo”. 
Soltam-se uns versos a céu aberto, 
canta-se a esse estado de alma,
prisão da mente, sufoco precipitado,
se em algum momento acreditou,
porque amou,
ou crê ter amado.
A um não sei quê que palavras não expressam
ou não servem para dizer…
Uma mistura homogénea disto e daquilo,
mão que cobre os olhos, os lábios,
num só bater de coração.
Mas sempre intemporal,
quer-se virgem, quer-se eterno,
esse amor nunca fantasiado.
Meus amigos, creio solenemente nunca ter amado!

Rita Oliveira
8.05.2012

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Alma à vista




Costumam ver-me sozinha,
Trago um vestido transparente,
Cor-de-alma,
e ilusões na bainha.
Nessas margens onde já se implorou poesia
e se lavou a cara de medos,
Eu lá ando, trago a vida ao ombro,
suspensa na ponta dos dedos,
Um sabor a liberdade acaricia
os cabelos…
mas sem tempo de limpar os cantos da boca.
E venho com lágrimas, venho com versos,
e suspiros,
desenhados na minha pele nua,
Com uma verdade que ofusca
todos os que me vêem vaguear na rua.
E é pelos olhos que lhes oiço a voz rouca:
«Quem vive passeando-se na dor,
encurralando-se nos caminhos da amargura?»
Pois que nunca me largue essa Loucura!
que corre comigo nas margens dos sonhos,
e vem deslizar na terra húmida,
que os homens já não se atrevem a pisar.
Mas não, não é por isso que deixo de dançar,
nas margens do rio,
no silêncio e nos murmúrios, que me traz essa razão,
Que só aos esboços das minhas ilusões,
Eu sou o toque da realidade.
Não fui eu, não fui eu que me fui!
Sou eu quem vive essa verdade.
Enquanto sanidade não me impedir de viver.
Deixem-me, deixem-me na margem!
Eu quero estar à margem!
E silencio,
para dançar.

 «E é por ser duro o acordar,
que vou deixar de adormecer?»

Rita Oliveira
16 de Abril de 2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Ao Café


Perguntaram-me o que desejava,
Pedi uma chávena de ilusão,
com creme e espuma,
e um pacote de sonho,
Que não me queriam servir.
Sem saber quem eu era, alguém passava:
- O que fui ontem,
Já hoje esqueci de madrugada.
Que serei amanhã? Quem quer saber? Quem?
Eu não,
Penso que fui pelo Mondego, Tejo
Ou nas correntes quentes do Verão.
Nos ventos do Norte,
No mar que rebenta sem rebentar,
Talvez o que fui,
já seja de alguém.
Na dúvida, trago presa a alma:
Como se pode ser não sendo?
Criança consciente de sua inconsciência,
Plenitude, em estado de dormência,
Ainda sobe ao muro a equilibrar-se na loucura.
Venha ela sentar-se comigo à mesa,
Que os demais já não me servem!
Não! Acabou-se-me a ilusão!
Empregado, traga-me café do mais doce,
Que a sombra na alma ainda perdura,
E ainda trago na boca,
O gosto da amargura!  



Rita Oliveira
20.01.2011

domingo, 13 de novembro de 2011

Primavera Portuguesa


E não entendem quando lhes digo,
Que o que me incomoda é o sol da Primavera,
Não, não me irritam as gentes amargas…
Nem a chuva de um olhar,
Ou o vento que por mim passa
Sem passar…
Não…
Incomoda-me o sol… o da Primavera.
Mas não, não me afadiga a ideia postiça,
Ou vulgaridade persistente,
Incomoda-me o sol da Primavera,
E não o valor vendido, a que fujo, fingindo que não me importa,
Mas a verdade é que aos ombros trazem essa identidade
Morta.
E quem quer vir cantar aos surdos e ignorantes,
aos bolsos e virtudes,
a quem as artes são insignificantes?
Que nem a razão do novo dia
Vos põe interrogação.
E o corpo que, arauto, bateu no peito,
está mole e calado
que pela Nação se vergou.
E já não proclama liberdade!
Ai passou, passou, aquela Primavera portuguesa,
E esquecem que o sol, no céu, se acha sempre…
Quem quer vir cantar às almas
cegas e adormecidas,
sem vontade nem encanto,
Que o passado de louvor,
são conquistas esquecidas?
E a Pessoa que jaz enterrada no sonho profundo
Acautelou-vos de que a cegueira vos levaria às esmolas
Das ruas do Mundo.
E por isso a minha alma ferida se afasta desse abismo,
Por onde cai toda a triste nação.
E que me aborreça antes o sol da Primavera,
E que tanto vazio não me impeça de apreciar a coisa bela…
Que eu deixo sempre a dúvida persistir
e caio na fraqueza de ainda questionar:
Quem quer vir levantar hoje de novo o esplendor de Portugal?

Ah, o que me incomoda mesmo, é o sol da Primavera…

Rita Oliveira
10.11.2011