Não há mais nada para dizer!



Descia a rua estreita e empoeirada,
Uma mão vinha cheia de tudo…
A outra cheia de nada…

Vinha com o seu vestido branco, não de cor, mas de pó,
Cruzava o olhar de menina com a gente da rua
Que vendia boatos e mexericos,
De que aquela menina de olhos bonitos,
Trazia a alma nua.

E era a rua estreita, pequena e cheia de gente,
E era o homem sentado na calçada…
Numa mão apertava o cigarro,
Que a poeira da rua abafava;
Atrás das costas, escondia o copo,
Que com a mágoa lhe afogava
O olhar vazio e resignado,
De quem se cansou de lutar contra a fatalidade do fado.

E ela, menina, música naquele cenário agreste,
Vinha pela rua com o seu jeito campestre.
De olhos postos no chão,
Perdida em risos que não eram os seus,
perdida na força de quem a magoa.
Oh menina, eu sei…
Que se tivesses um Deus
Sairias de ti para ser qualquer outra pessoa.

Mas não tens! E sabes…
Que nos teus olhos já não há milagres!
E sabes, apesar de não quereres…
Que ontem fomos crianças,
E hoje acordámos mulheres.

E sabes que o homem na calçada,
Ria para ti se um sorriso lhe davas.
Mas muita gargalhada também trás engano.
Corre o boato de que não és feliz
E que o teu sorriso não é dos imortais.
Mas por muito que se esconda o copo,
Quando cai o pano, somos todos iguais!

Sabes que a tua rua é estreita,
Sabes que a tua rua é pequena...

...sabes que a tua rua não tem fim.

E não há mais nada para dizer!


Rita Oliveira
24/05/2010

Comentários

Vamos descendo ruas, e são dessas mesmas ruas que nos ditam o nosso rumo... às vezes com mãos cheias de tudo, outras com mão cheias de nada. Ou mesmo uma mão com o tudo, e outra com o nada.
Por vezes nada é branco ou preto. Ficando o cinzento: copos vazios, copos meio vazios, copos meio cheios, copos cheios… =)
Despimos a nossa alma quando já nada resta… nem corpo nem rosto, nem sofrimento nem desalento, nem felicidade nem dignidade…
Personagens tipo do nosso banal dia-a-dia: por um lado o teu eu poético que vai sofrendo, divagando (até mesmo pela rua, ou mesmo na lua), ou o homem que surge tão poético, que de poético não tem nada: onde surge a pergunta:
Porque se refugiar no tabaco e na bebida, sem fazer com que melhore a sua vida?
Por muito que o destino trace caminhos obscuros, desleais, com barreiras e montanhas: o importante é não fugir, nem arranjar maneiras de fuga ao que não é permitido fugir.
Tu mesma o sabes, talvez melhor que eu mas é doença. É acima de tudo cobardia.
Deus, para mim não passa de uma figura de que nos queremos ter para confiar, que sabemos que nos vai amar/perdoar, e que acima de tudo não nos vai abandonar.
Quando essa ilusão passa, a ingenuidade também... ainda és a criança, que eu tenho na lembrança, cheia de (falsa) esperança.
Sabes, Rititi, não és infeliz: tens tudo o que precisas à tua volta. Tu e eu!
So temos de nos agarrar aos nossos impulsos e nossos sentimentos, e fazer disso forma de viver.
Prometo-te, que falta de amor e carinho, atenção e dedicação e um ombro amigo jamais te faltará.
Porque não me vou embora do teu coração mesmo que o tentes, e por mais asneiras que já tenha feito: no final, ficaremos sempre bem e não haverá mais nada para dizer…
Adoro-te princesa...

(sugestão musical:negras como a noite dos xutos)

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