E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
                                              
                                                    Álvaro de Campos


Vou caminhando deslumbrada com paisagens inventadas,
Que as gentes alheias criaram em mim
(E eu deixei que o fizessem).
Trago nos olhos o peso do mundo,
Trago delírios entre o pó da janela do quarto, que me amparou os sonhos da infância,
E é entre esses delírios que escrevo.
Deixei no chão o corpo de criança, aquele que tive de despir à pressa…
E é entre essa pressa que escrevo.
Que me abandono,
E deixo que me rasgue a pele, esse silêncio que se amarra às paredes,
Essas palavras que me deixaram despida,
E uma criança perdida algures no tempo que não passa, por se ter perdido no infinito…

Sim! Não ousem pronunciar qualquer palavra!
Que sei de cor o que vos passa pelos olhos.
As vossas vozes afadigam-me!
Se não respondem ao que quero saber,
Não ousem gritar o que sou, o que nem eu sei.
E é por não saber que já sei mais que vós!
Não! Não me venham falar de sonhos que não sonhei… e que devia ter sonhado!
Não me venham falar de palavras,
Daquelas que eu não usei!
Daquelas que eu não disse!
Não me venham falar do sol que nasce para todos!

Não me venham falar de regra, de teoria, muito menos de religião!
(Sim, não se atrevam a falar-me de religião!)
Não me venham com Filosofia,
Com a revolução,
Com a falsa moralidade, que enche os ouvidos aos tolos para puder ser moralidade,
e para puder ser falsa, claro…
Vontade e loucura? Leva-as o vento!
Arriscar a fé pelo certo é cobardia,
Bater no peito continua a ser fácil!

Não venham inventar paisagens, que o meu olhar não é cego!
Só nasci para o voo rasante sobre as águas,
Nas fronteiras entre as gargalhadas,
e as lágrimas…
Só nasci para a minha liberdade.
Sou para o Destino,
Sou para as ruas largas,
Para o sol que nasce para mim,
Sou para o barulho,
Sim, para o barulho!
Para os delírios, para a febre que trago,
Para o corpo, que deixei pousado no chão,
que se funde no tempo e nas memórias.
Sou para o Nada!
Não sou de nada, não sou de ninguém!

Não me venham com poesia, que não sou de segundas interpretações!
Não me digam quem sou!
Sei que não sei quem sou!
Nem quero saber!
Não vá, por acaso, descobrir que não existo…


Rita Oliveira
7 de Março de 2011

Comentários

Miguel Cruz disse…
Mais uma vez, Rita, isto está de génio! Eu adorei este texto!! Está poderoso! Nunca compreenderei o que sentes, mas sei que o que sentes é profundo e entranha-se nos meus sentimentos! Está magnífico! Segue a tua vida e não as paisagens que te inventam =)
Anónimo disse…
Mais um texto lindo Rita :)
Excelente construçao, profundo, cheio de sentimento.
Nao é qualquer um que consegue escrever sobre eles e sobre memorias assim desta maneira. Parabéns amor, e como sempre estarei sempre ao teu lado para qualquer ocasiao na tua vida.
Amo-te <3
Anónimo disse…
hoje rumeiaomar e notei as águas agitadas por emoções que poderiam ter sido minhas,fruto de relacionamentos mais ou menos profundos.Ai!quanto desejo de águas serenas e límpidas,onde se podem observar as maiores maravilhas do nosso próprio mundo!,sim porque esse nós temos o privilégio de criar como desejarmos.

Mensagens populares deste blogue

AEMINIUM

O sonho

Amagogía