Carta de Loucura


Um dia, estas folhas em que escrevo, serão lidas pelos demais.
Partilharão, finalmente, da minha dor, da minha ânsia, da minha angústia... a boca há-de-lhes amargar tanto como a minha, outrora, amargou, ao descobrir que nada tinha de meu.
Sim! Vão romper de espanto perante as descobertas de nunca terem descoberto coisa nenhuma (e, se descobrissem, qual seria a diferença?).
Invejo tal sossego da alma e apatia pela procura... com a qual eu nunca soube viver...
E de que me vale não saber?
Se esta busca pelo que não sei estiver para mim, como o gigante rochedo está para Sísifo...
Sei que vão amarrotar as minhas palavras,
Vão dizer que ocupam demasiado espaço nas gavetas lá da casa porque, claro, qualquer mente que se preze de ser lúcida não deixa que lhe destapem os olhos... não vá deparar-se com a essência da Loucura ao virar a rua...
e depois? Que diriam as pessoas se soubessem? (e, se soubessem, qual seria a diferença?).
O que não sabem, é que elas ficarão no pó, nas marcas das paredes que só o tempo tirará quando achar que já não servem, para vos lembrar que viveis na ignorância e na fraqueza de não ousar pensar.
E é por isto que vou ficando, no meio da multidão que me é familiar,
muda, imóvel, a cismar,
À beira da pena que trago por não ter aquela lucidez...
Até me voltar a recordar que é de Loucura de que são feitos os sonhos... escondidos atrás dos gigantes rochedos onde bate o Mar das almas livres.

Rita Oliveira
1 de Julho de 2011

Comentários

David Sérvolo disse…
"A mais subtil loucura é feita da mais subtil sensatez." Autor - Michel de Montaigne

Excelente "carta", e como todos os outros textos elaborados por ti, enche olhos e mente.
Tudo o que partilhares com os não-loucos será uma lição para eles, uma nova lição de vida para os demais.

Continua o óptimo trabalho Rita, e dá-nos muito mais de obras-primas destas.
Anónimo disse…
viverei realmente?Será o meu mundo igual aos demais? será legitimo que me sinta só, quando rodeado por tanta gente?.
Estou a viver porque nutro um profundo respeito pelas diferentes formas de vida. ou será que não? serão os meus valores iguais aos dos meus semelhantes?. Estarei a sonhar?,o amanhecer di-lo-á, o entardecer tudo fará esquecer com seu por do sol, o anoitecer descansa-lo-á e só o enegrecer o confundirá.
Susana Soares disse…
Álvaro de Campos

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
E' estar ao lado da escala social,
E' não ser adaptável às normas da vida,
'As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
E' ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
E' ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.


Álvaro de Campos


(Porque a loucura é uma escolha da alma.)

Um abraço. Lúcido?
Susana

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