Ao Espelho




A pobre criança, que canta e brinca na rua,

julga-se de mãos dadas com o Mundo,
mas desconhece, coitada,
que é o Mundo que a traz pela mão.
E é impossível prender-te a alma,
que trazes livre entre choros e gargalhadas,
alheia às maldades e às vergonhas.
Ah, criança, que essa alma solta nem a ti te pertence,
E poder ser tu, saindo de mim...
Partilhar dessa santa vida ingénua que outrora foi minha também,
Com o corpo cheio de tudo,
e de nada.
Talvez sim, talvez não,
Que todo o sonho ingénuo tem doloroso despertar.
E na mão da tua essência, criança, trazes o espelho onde se esconde toda a realidade.
Acautela-te e dele não te separes.
Esse sonho de vida foi, outrora, meu...
perdi-me na brisa dos sorrisos e nos intervalos da dor!
Foge, ó criança, foge para onde vai o tempo,
e a idade.
Que quando me debrucei sobre o espelho que a minha alma arrastava,
Não me reconheci...





Rita Oliveira
15 de Agosto de 2011

Comentários

Anónimo disse…
Brilhante!
David Sérvolo disse…
Magnifico Rita.
Ai, esses tempos de pura ingenuidade, liberdade e de despreocupações para com o mundo. Mas nada dura para sempre, e a certa altura todos tomamos noção da realidade que por ai anda.
Parabéns, por mais um excelente texto. Continua :)
Peterman disse…
Estamos a entrar numa fase de ignorância, estamos a dormir na mais intensa maneira que possa existir.
Existe uma ausência do mundo real, e apenas o conhecimento do mundo próprio.

Porém, a verdade da realidade, é que ela atinge de diversas maneiras, obrigando uma pessoa acordar.
E no fim de anos, olhamo-nos ao espelho e pensamos:
"Não me Reconheci"


Ps. Estás a ganhar algo muito... bonito digamos assim :)
Gostei do texto Rita, continua o excelente trabalho ;)

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