sábado, 9 de abril de 2016

Alice

Mulher sentada, Almada Negreiros

A Alice foi-se embora!
Foi-se embora escondida na sombra das nuvens,
e levou vestido os dias de ontem como gostava de os ter vivido.
Amigos, a Alice foi-se embora.
E só deram pela sua falta ao jantar,
quando, às oito horas, a mesa ainda não estava posta.
Nunca mais ninguém a viu.
A Alice foi-se embora depois de ter parido três filhos
e de os ter dado às suas vidas.
Foi-se embora depois das gargalhadas à mesa
e das maçãs do quintal caírem de maduras.
Mãe, a Alice foi-se embora.
Nunca mais ninguém a viu.
Só deram pela sua falta quando, à hora de dormir,
viram as camas desfeitas.
Quando o lixo entulhado não deixava abrir as janelas.
E quando o pó se confundia com a nossa própria pele.
A Alice foi-se embora depois de, tão carinhosamente,
eu lhe ter aquecido a cara com a minha delicada mão.
Foi-se embora porque se despiu diante do espelho e não se viu nua.
Foi-se embora porque se queria ver nua.
E agora, a aurora já não é fresca e húmida,
nem a noite amanhece com a mesma delicadeza feminina.
O mundo não mais será como fora outrora.
Resignem, a Alice foi-se embora.



Rita Fé, 8 de Abril de 2016

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