segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Funambulismo

Ilustração de Troche

Eu quero andar na bamba, 
E sentir a corda a vincar-me os pés.
Nela caminhar, pausadamente,
pousando no ar os braços abertos
em gestos suaves e doces.
Arquear o pé delicadamente, as unhas pintadas de branco pérola,
tal qual uma bailarina,
mas sem fazer um grand jeté.
Ao fundo há uma música, só para criar expetativa,
apenas um piano choroso, alegrando-se a cada acrobacia,
para condizer com a seda rosa que visto.
O coração bate-me do peito até à garganta,
Porém, tudo se equilibra numa gloriosa harmonia.
Mas alguém do público começa a chorar uma chuva miudinha,
e, ao lado, outro sopra uma aragem impaciente,
tudo se me cola ao corpo lentamente.
Caio na erva molhada,
e em cima de mim o olhar de todos.
Todas as dores do mundo correm,
para me vir esmagar contra o solo.
Cravo os dedos na terra,
chego a pensar em não mais abrir os olhos
e dissolver-me nela.
Mas não!
Que se animem todas as forças conspiratórias
que atuam em mim!
Que é a vida se não cair e levantar?
Pois bem, ponham a corda mais alta!
E que o vento a faça ondular violentamente!
Porque enquanto o sol em mim brilhar,
jamais darei ordem para o espetáculo terminar!


11.10.2016

3 comentários:

Maria Cruz disse...

Muito bom! Muito bom, mesmo!

Fico à espera do próximo.

Maria Pita disse...

Adorei o ritmo, a traquinice da bailarina, o ânimo enérgico da jovem mulher... Está tudo lá!

Maria Pita disse...

Adorei o ritmo, a traquinice da bailarina, o ânimo enérgico da jovem mulher... Está tudo lá!