AEMINIUM


Margaret Bourke-White - Hats



















Na cidade que se ergue junto ao rio,
tumultos citadinos emergem ruidosos
ao romper da madrugada.
E numa rua apertada de tempo
todos caminhamos em direções desiguais.
Fumos de formas disfóricas
dissolvem-se no céu azul novo.
E vozes meigas, histéricas, chorosas,
gargalhosas, indiferentes, sonolentas,   
em conversas paralelas aos meus pensamentos,
misturam-se com o ruído dos carros raivosos
e o cheiro do pão quente que sai das padarias,
numa tímida ode citadina.
Numa rua apertada de espaço,
numa manhã que pede calma,
que se boceja e espreguiça
sem ainda ter posto os pés no chão,
todos passamos às nove da manhã,
à espera das seis da tarde.
Que vida esta, em que ansiamos que o tempo passe,
mas nunca queremos envelhecer.
Todos passamos em atropelos
todos contornamos o pedinte, a cauteleira, o promotor,
e o homem que ainda agora se agachou para atar o sapato,
com a mesma facilidade com que gostaríamos de contornar o que nos inquieta.
Que vida esta, onde sentimos pressa de chegar,
mesmo sem saber para onde vamos.
Os quiosques abrem as janelas,
e põem as novidades de hoje a enxugar.
E hoje há novas conquistas, novas leis e novas regras.
E algures entre as princesinhas de Espanha
e a denúncia de um político corrupto,
uma manchete grita em letras gordas:
“Esgotámos todas as formas de sermos felizes”.


Rita Fé

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