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A mostrar mensagens de Março, 2008

Corredor(a vida corre!)

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Era grande chato e comprido. E nele apenas caminhava uma criança inocente (que de criança só tinha mesmo a inocência) e uma criada velha que estava encarregue de levar a miúda até ao local desejado.
De pulso firme a criada agarrava a pequenita pelo ombro. Criança de poucas falas e de muita timidez mas nunca de má- educação!
A pequena sabia-o, ela sabia porque estava a caminhar naquele corredor, e sabia para onde a levavam.
Parecia não ter fim, aquela “estrada”. Havia porta dos dois os lados. Quando era ainda mais miúda, enroscava-se nos lençóis e fechava os olhos, á espera que alguma coisa sai-se de baixo da sua cama ou de dentro do seu guarda-roupa. Mas nunca saiu nada! E o medo foi desaparecendo e tudo teve um fim quando num momento de coragem abriu as portas do guarda-roupa e viu que não estava nada lá dentro... apenas ar.
Com o passar do tempo foi aprendendo que na vida há sempre portas por abrir, e ao serem abertas não se descobrem monstros, mas sim mais portas á espera de serem abert…

A Invenção do amor

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Em todas as esquinas da cidade nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho do medo da solidão da angústia um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel numa tarde de chuva entre zunidos de conversa e inventaram o amor com caracter de urgência deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis Apenas o silêncio A descoberta A estranheza de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta de um amor subitamente impe…

Sebastião

Ainda me lembro daquele dia, tinha apenas uns centímetros de cumprimento e não se cansava de girar sobre si mesmo. Deram-mo no dia em que completei os meus dez anos de idade. Lá vinha ele no aquário minúsculo e redondo, lá vinha ele, o meu peixinho vermelho.


Oh Sebastião! Maldito o dia em que tive de ir buscar o pão, naquela manhã de nevoeiro... Aposto que nunca me teria lembrado de tal nome!


È engraçado! Foram precisos quatro anos para eu prestar atenção, foi preciso estar sozinha naquele dia para ver “o outro lado”.



Estava ali o Sebastião, agora já maior, com um aquário enorme, rectangular, sozinho.
Pensei:

“Nunca deve ter saído do aquário!” Lógico!

“O rio? Ele não conhece o rio!” Claro que não!

“E o mar? Aquela imensidão bela!”


Comecei a sentir pena dele! Do meu Sebastião, que se divertia consigo mesmo, limitado por quatro míseras paredes de vidro, com apenas umas meias dúzias de litros de água, movimentava-se graciosamente, completamente alheio ao que estava por de trás das suas paredes t…